14.1.08
No quarto post do diário do Havaí, escrito pelo economista-surfista Pedro Ribeiro - ou seria surfista-economista -, a primeira vez com uma onda um pouco mais gorda, mas capaz de um caldo maior que muitas esbeltas tubulares: Sunset.
Leia aqui:
o primeiro post, o
segundo post, o
terceiro post e o
quarto post.
Dia 9/01 - North Shore, Oahu
O swell aumentou e continuou inclinado de nordeste. Rocky Point estava rolando, assim como suas primas Backdoor, OTW e Rocky Piles. Pipe quebrava com seus bodyboarders obstinados, sem a perfeição usual. Apesar de todas as tentações, continuei fixado na idéia de surfar a famosa onda de Sunset Beach.
Era a vez da longa ladeira. Botei minha prancha oito pés Mad Dog (que foi do Kléber, do Chalita...) na água. Depois de observar por alguns minutos o movimento da massa d´água, escolhi o melhor local para começar a remada rumo ao pico. O vento soprava forte e criava um visual muito familiar aos meus olhos. Era uma cortina de água incrível, que onda após onda pincelava as dezenas de fotos tiradas por turistas e fotógrafos de plantão.
Dava minhas remadas em direção ao pico, e não parava de pensar em todas as fotos, vídeos e histórias que já tinha visto sobre aquele local. Foco. Depois penso nisso. As séries estavam bem grandes, chegavam aos 9-10 pés tranqüilamente. As intermediárias estavam com seus 4/6 pés e acabaram sendo a minha opção pra abrir a caída. Logo que cheguei lá fora, deu pra ver o volume de água que passava por mim a cada onda. Abri rabeando um carinha. Descemos juntos uma ladeira interminável e saímos da onda sorrindo. Devia ser iniciante, como eu... ou não. Voltei empolgado e decidi arriscar as maiores logo. O ombro sinalizava que o prazo de validade estava chegando. O punho também começou a atrapalhar: doía o tempo todo.
Lá fora só tinha barco. A minha prancha era um caiaquezinho de merda se comparada às 9 pés e tanto brilhantes dos 5 ou 6 caras com pinta de locais. Fiquei um pouco atrás deles. Quando veio a primeira da série, não deu pra acreditar! Me caguei! Era uma parede de onda que parecia que iria quebrar muito lá fora. Remei que nem um condenado, e passei todas as ondas da série sem perrengue. Ela arma mas não quebra, entendi. Tem que ter sangue frio! Rema pra cá, rema pra lá, Barton Lynch estaciona ao meu lado. Hahaha Parece novela! Pois, na série seguinte, ele surfou uma onda irada, venenosa e saiu lá na pulta quil parau. Ah tá... é assim que se faz... beleza.
Na série seguinte, o dono de um Titanic não conseguiu entrar numa onda maravilhosa, uma carranca padrão. Não pensei duas vezes: iniciei minha investida. Bem, das últimas remadas até a metade do drop eu vi muito pouca coisa, tamanha era a quantidade de água jateada na minha cara. Só deu pra sentir aquela sensação de pouco peso e em seguida o peso nos joelhos. Quando me dei conta, estava ladeira abaixo, lutando pra chegar até a base e mudar de direção. Dito e feito, comecei a cavar forte porque vi a parede de água que se formava na minha frente. Joguei lá pra cima dela e dei uma leve rasgada pra fazer um segundo drop. Que velocidade! Tudo sob controle, já não tinha mais muita aventura. Era só continuar passeando até o mais longe possível da zona de impacto e o mais próximo do canal. Lá sentado, como de costume, parei pra contemplar o momento. Surfei uma onda grande em Sunset. PQP!
Depois disso não me dei por satisfeito e voltei pra lá. Veio uma série animal e varreu todos menos eu e mais 3. O Barton ressurgiu com sua prancha quebrada. Peguei mais uma que fechou e aí foi sinistro. Deitei na prancha e não larguei por nada. Ai meu punho! Voltei pro outside e surfei mais duas. Vi imagens lindas de ondas incríveis sendo surfadas com maestria pelos locais. Lá pelas tantas aparece novamente o Barton de prancha amarelada e dá aquela olhada tipo "beleza?".
Pronto, vocês sabem como gosto de um chat-amizade. Hahaha!
- Pô, vi que você quebrou sua prancha.
- Pois é. Era novinha. Uma pena! Cara, tem altas ondas!
- É mesmo! Essa é minha primeira caída aqui. Pra mim tá demais. É sempre assim, meio confuso, subindo ondas ora de um lado, ora de outro?
- Sempre! Sempre!
- Cara, te vejo competir desde criancinha no Brasil. Sou um grande fã seu.
- Pô, obrigado. Legal.
Aí, subiu uma série e a conversa acabou.
Já cansado, surfei outra um pouco menor que a primeirona e consegui ir até bem próximo da praia. Que bom! Sai do mar realizado e feliz pra cacete. Vocês não podem imaginar quanto! Seis ondas surfadas em Sunset.
Agora já surfei as quatro principais ondas: Pipe, Haleiwa, Rocky e Sunset. E Waimea?? A previsão é de que o mar deve subir nos últimos dias. Será??? Será???
Comi um arroz com feijão irado em casa e depois fiquei vendo o espetáculo de ondas de OTW e Rocky Piles, que já estavam bem maiores. Acabei não surfando à tarde e indo pra um outlet na cidade vizinha. Enorme! E eu achando que o Hawaii era ilha de surfista.
Marcadores: diário, Havaí, Pedro Ribeiro, Viagem de surfista
11.1.08
No quarto post do diário do Havaí, escrito pelo economista-surfista Pedro Ribeiro - ou seria surfista-economista -, enfim, a primeira vez de um mortal em Pipeline.
Leia aqui:
o primeiro post,
o segundo post e o
terceiro post do diário.
Dias 07 e 08/01 - North Shore, Oahu
O swell virou e Pipeline despertou, só que um pouco menor. As condições não estavam boas, com ondas menores subindo mais ao lado, a maioria das séries fechando, enfim... difícil de se dar bem. Mas era o dia, não tinha como escapar. Café, barrigada, segundo check out, e-mails, tum-tum, alongamentos.
Séries de 6 pés, intermediárias de 3 pés. Demorei pra entrar porque a série não subia e queria ter certeza que não seria apanhado. Foda-se, entrei no intervalo. Tava mamão. A vala me jogou lá dentro. Não demorou e peguei logo a primeira. Coloquei pra dentro numa de 3 pés e morri lá dentro. Boa. Peguei outras duas pra pegar o tempo e me arrisquei numa maior.
Então... hahaha. Aí, Beto! Me lembrei de você. Fui lá pra fora, me coloquei mais pra dentro do pico. Outros 37 bb's tentavam a mesma onda comigo. Complicado. Mostrei vontade numa da série em que eu estava na preferência. Era a 3ª ou a 4ª da série, e achei seguro arriscar.
Remei forte, vi que nego aliviou, fiquei mais amarradão, era perfeita! Tava tudo perfeito... demais pra ser verdade. Simplesmente SECOU! Tudo. Quando vi, estava solto no ar. Tudo preto embaixo. Deu medo. Larguei a prancha e afundei de pé como prego. Parecia ter água suficiente. E tinha. Afundei bem, e não sofri nada. A prancha estava bem e não subiu qualquer onda atrás. Voltei remando meio assustado, assim como os olhares de metade da população do pico, que pararam para ver a cena. Hahaha! Tô vivo!!!
Vamos pra próxima. Demorou pra caralho! Comecei a sentir uma fotofobia. Não conseguia ficar de olho aberto direito. Muita claridade. Comecei a querer sair logo do mar. Tava ficando com dor de cabeça. Peguei uma intermediaria que abriu mas não rodou e não formou parede... Fui pra casa amarradão. Tomei uma ducha e fiquei relax vendo o mar. Comi uma parada e fui escrever meu diário. Chapei e quando acordei ainda estava com a sensação ruim na vista e por conta disso não caí no fim da tarde. Amanhã o mar vai dar uma pequena diminuída, e o swell vai mudar pra
oeste, o melhor pra Pipeline.
Como previsto, o mar deu uma diminuída, mas não virou pra oeste. Continuou de nordeste. Essas condições são perfeitas pra Rocky Point. Depois de checar o mar em Pipe e em Off The Wall, peguei uma bicicleta e percorri pico a pico até Velzyland, um dos últimos dessa região. OTW era realmente a maior onda, com direitas de 5 pés na série com bastante força. Pipe tava menor e pouco tubular. Backdoor estava bem legal, com ondas de 4 pés na série, rodando bonito.
Como meu objetivo é surfar Haleiwa, Pipe, Sunset e Rocky Point, preferi matar mais um pico e deixar Sunset pra outro dia. Aliás, ontem rolaram altas por lá.
As ondas em Rocky Point estavam PERFEITAS!! Vários fotógrafos na areia, muito rosto conhecido, e não muito crowd dentro dagua. A entrada foi mamão, passei pelo crowd da esquerda e me coloquei mais pras direitas. Tinham pelo menos quatro picos de onda quebrando, o que deixava o crowd bem espalhado. Tava certo que aquele era o mar pra surfar o primeiro tubo no Hawaii. Foco!
As ondas tinham 5 pés na serie, com intermediarias de 2-3 pés. Surfei uma esquerda pra abrir a caída. Nada demais. Depois, uma direita maior que veio na série, mas que fechou. Assim que pude larguei a prancha pra poder voltar logo. Ledo engano. A bancada de pedra faz com que a espuma não te largue e te arraste por longas distâncias. O resultado foi que tinha alguns palmos d’água e eu ia me desdobrando pra não me lanhar nas pedras. Acertei uma bem forte com a bunda, mas nada aconteceu. Me liguei na situação. O certo é ficar quieto em cima da prancha e quando der, começar a remar. Isso sem falar nas duas cabeças de pedra que habitam o local.
Pois foi em meio a todos esses aprendizados que o Fabio Gouveia chega ao meu lado com aquela cara amistosa que todos conhecem. "Fabinho, sou teu fã", disse a ele. Gente boa o cara. E como surfa!!! A primeira onda dele foi um tubaço! Vi pelo menos outros 3 incríveis! Irado!
Bem, já tava demorando quando encontrei uma esquerda perfeita, de 1 metro. Já dropei me colocando pro tubo. Não deu outra, o lip passou pela minha cabeça e sai pela porta. Um tubo simples, mas inesquecível! Fiquei amarradão. Voltei, peguei mais algumas ondas, morri dentro de um tubo muito longo pra esquerda e saí do mar certo de que aquela tinha sido uma bela aula de Hawaii. Que venha a próxima!
De tarde fui ate a cidade Honolulu alugar um carro porque o sul-africano tinha que devolver o dele. Que cidade grande! Nem parece uma ilha! Impressionante foi ver como as ruas são bonitas, com tochas de fogo, jarros de flores nos postes, uma puta infra-estrutura em Waikiki. Os hotéis são impressionantes! Vale a visita.
De volta à Ferrugem dos idos anos 90, o North Shore, e já alimentado com um belo Double Whooper do Burger King, chego pra filar o laptop do Hugo, com conexão WiFi furtada de algum visinho desavisado, e vos escrever. Tá uma paz celestial na casa porque acho que foram todos dar uma banda. Graças a Deus! Amanhã a previsão e que o swell diminua um pouco mais. Devo pegar experiência aqui em frente... Backdoor, quem sabe?
Marcadores: diário, Havaí, Pedro Ribeiro, Viagem de surfista
10.1.08
No terceiro post do diário do economista-surfista Pedro Ribeiro - ou seria surfista-economista -, uma lição de como a atitude faz a diferença no arquipélago havaiano.
(
Leia aqui o primeiro post do diário.)
(
Leia aqui o segundo post do diário.)
Dias 05 e 06/01
Ontem não teve report tamanha era minha exaustão. Acordei e fiquei esperando algum desgraçado sair pro surfe. Erro número um. Acorde e vá a luta. Lá pelas 11h me irritei e fui surfar sozinho mesmo em Off The Wall. Incrível!!! Esquerdas menores, rodando na bancada rasa. Direitas de dois metros paredudas e algumas vezes muito tubulares.
Estratégia já definida no dia anterior e executada: surfar as séries. Pois que seja assim, carrancas de 2,5 metros na série, umas delas me acertou em cheio. Amigos, que força! Subi na prancha, cagando se ela ia quebrar ou não, e mergulhei o mais fundo que consegui. Passei. Quando recolho a coitada, tinha outra ainda maior. Subi nela, dei mais umas cinco remadas pra cima dela e fiz o mesmo. Desta vez, não foi tão tranquilo. Sacudiu-me forte. Fiquei zanzando de um lado pro outro até que voltei à superfície. Vinha mais uma. Subi que nem um pobre-diabo na prancha e dei duas singelas remadinhas pra cima dela. Haja fôlego! Desta vez ela, quebraria bem em cima de mim, e resolvi medir forças com o lip. Melhor assim, porque tinha visto que até ali a coitada da prancha estava intacta. Passei bem, mas percebi que a biqueira da minha 6,5 tinha sumido!!! Hahahaha. Forte nada!
Fiquei encasquetado e esperei até conseguir dropar uma dessas. Voltei, peguei outra e me dei por satisfeito. Mais habituado agora do que nunca.
No final de tarde, foi a lelecada toda surfar Laineakea. Alllltas ondas, PQP!!! Séries de 1,5m, algumas maiores. Tem uma sessão que parece a Macumba de gala. Outra mais embaixo que lembra... deixa ver... Laineakea mesmo. Perfeito, rapaziada. Quem quiser ficar no bem bom, pode vir porque sempre vai ter um pico mamão pra surfar. Remada bem longa, só saí do mar de noite. Fiquei com medo dos dentuços, mas tinham mais uns 15 comigo. Hahaha. É isso.
Sai da água, tomei um banho e fui conhecer, com o sul-africano amigo, o Stephan Figueiredo e mais duas brasileiras um shopping em Mililani. Estilo o Downtown do Rio. Muito legal. De lá fomos pra um bar em Haleiwa que estava rolando um belo evento. Cheio de locais!!!
Ombros e músculos do braço e costas pedindo arrego. Atendi ao corpo e tirei o dia pra reconhecimento de outros picos, passeios e fotos, com direito a hidro e piscina no resort de Turtle Bay. Quem puder, passe a lua-de-mel aqui!!!
Chegando do passeio, juntamos mais cinco e fizemos uma pelada no gramado em frente à nossa casa. Assim que acabou, surgiu a idéia de um mergulho pra tirar o suor, mas a idéia sofreu uma pequena mutação e o tal mergulho acabou se tornando numa caída em Ehukai com menos de 15 minutos de luz restando. Corre-corre, pôr-do-sol, maravilha. Peguei uma pequena rapidinho e sai de cabeça feita. Rotina de sempre e mais de nove horas de sono... merecido.
Marcadores: diário, Havaí, Pedro Ribeiro, Viagem de surfista
9.1.08
No segundo post do diário do economista-surfista Pedro Ribeiro - ou seria surfista-economista -, ondas desafiadoras e boas experiências.
Leia aqui o primeiro post do diário.Abaixo, mais dois dias de sonho:
Dias 03 e 04/01
Valeu, amigos! Vocês vieram comigo.
Pela manhã do terceiro dia, analisando as ondas de Pipeline ao meu lado, o Garret McNamara falava sobre o swell de Nordeste que vai acertar a ilha amanha. A rapaziada, em especial Danilo Couto, fazia loucuras em Pipe. Waimea continuava rolando. Espetáculo!
O mar tinha dado uma ligeira diminuída (12-15 pés) e resolvi ir com minha 6.10 pro mesmo pico (Puena Point). Não gostei muito da caída mas deu pra me divertir com séries eventuais de 6 pés.
Almoço classe A em Haleiwa e final de tarde relax na areia, curtindo o visual e o clima do lugar.
Supermercado, janta com a rapaziada da casa, cervejinha, banho e cama antes das 23h! Hawaiian life style.
Acordei cedo, muito frio de noite. O vento tá muito forte e estragou as ondas em Pipe. Ao lado direito rolavam boas diretas num pico chamado Ehukai Beach Park. Ondas de 6 pés com séries maiores, envenenadas pela ventania de side shore. Nervosismo básico.
Café da manha, alongamento, tum-dum, tum-dum, tum-dum. Aparece o João Paulo (Jompa), do Leblon, e fomos cair juntos. Depois de puxar o bico em umas três ondas pra pegar o tempo, coloquei pra baixo na primeira esquerda. Muito cavada. Fechou. Mudança de estratégia! Direitas da série. Perrengue pra entrar. Vou lá pra fora e aguardo as bichonas. Medo de tubarão! Veio a primeira, deixo passar, e remo pra segunda da série, carranca de 6 pés. Drope tranqüilo, passando na parede. Cut back, rasgada. Tá ótimo!
Próxima onda, direita maior. Cavadão, rasgada básica passando, outra cavada e rasgada nervosa. Boa! Mais umas depois, já exausto, encerro a primeira caída do dia. Agora vamos pro West side. Deixa eu ir!
Depois da caída desafiadora da manhã não fomos pro West side e acabamos caindo em Haleiwa. Altas ondas que de fora d´água não mostravam a cara. Um metro com series de 1,5m (3-5 pés) numa direita com parede muito divertida. Era o local mais protegido da ventania que assola o arquipélago. Estou exausto, ainda fora de forma. Amanhã tem mais report e surf, claro.
Marcadores: diário, Havaí, Pedro Ribeiro, Viagem de surfista
8.1.08
Todo inverno havaiano é a mesma coisa. A imprensa especializada cobre todos os movimentos das grandes estrelas do surfe mundial na temporada no North Shore. Mas falam pouco do surfista amador, para quem o Havaí é, muitas vezes, o grande desafio da vida. Um chapéu naquela onda que sobrou em Pipeline depois de três horas de surfe tenso tem mais valor que o enésimo tubo profundo de um top 45 ao seu lado. É tudo uma questão de perspectiva.
Por isso, o Surfe Deluxe publica, a partir de hoje, por uma semana, o diário do amigo Pedro Ribeiro, um bom surfista amador que divide seu tempo entre o trampo numa telefônica e as ondas do Leblon. Foi a primeira e inesquecível temporada havaiana do garoto, recheada de surpresas, novas sensações e limites ultrapassados.
Ontem recebi um e-mail dele: "Ano que vem, tô lá de novo."
Abaixo, os dois primeiros dias:
Dias 01 e 02/01 - De frente pro melhor mar
Depois de uma viagem bem cansativa, de estresses por conta de taxas extras e vasos de perfume e protetor solar indevidos, cheguei ao Havaí. A pessoa que iria me buscar não apareceu e acabei formando uma dupla com um sul-africano gente boa. Alugamos um carro e fomos em direção ao North Shore. Aproveitamos para pegar algumas direções e enfim conseguimos encontrar a tal casa com as pessoas conhecidas.
Fui bem recebido e já estou instalado. Por enquanto durmo na sala, mas amanhã já passo para o quarto, que me custará US$ 40 por dia. A casa fica em frente a Pipeline, a praia mais cobiçada da ilha. Ainda estou custando a entender as coisas todas, mas aos poucos vou me dado conta.
Estou bem tranqüilo. Dormi bem na primeira noite e estou certo de que aproveitarei bastante. Tudo me leva a crer que foi uma decisão acertada. O clima da casa é bem leve, com garotos descompromissados curtindo a vida, o que acaba sendo bom, se não considerar a bagunça.
O mar amanheceu enorme e estou indo pro lado Oeste da ilha em busca de ondas menores. Aqui em frente fotografei desde 6h30m da matina o espetáculo de ondas cabulosas e amedrontadoras! O interessante é ver pessoas se aventurando nelas com muita simplicidade e desprendimento. Acho que é o habito. Só pode ser!
Dei minha primeira caída, cara. PQP! Tava muito nervoso. Nem parecia eu!
O mar tava enorme, rolando Waimea. Pipeline 15 pés na frente de casa. (de
madrugada o som das bichas bombando... imagina!).
Fui prum pico de direitas chamado Puena Point, na entrada de uma baía e, por isso, mais protegido do swell. De início, achei que com a minha oito pés sobraria muita prancha, mas lá dentro vi que as ondas de seis pés da série deixavam meu "barco" mais à vontade. Aí, começaram a quebrar ondas de oito pés, assim do nada! Incrível! Na minha primeira onda, uma de seis pés, logo que fiquei de pé o tubo armou na minha frente. PQP, mas logo na primeira onda da primeira caída no Havaí!!! Minha indecisão custou caro e tomei o lip nas costas. Aiii!
Na segunda, tratei de encontrar a posição correta dos pés. Na terceira, coloquei no trilho, braço esquerdo dentro d´água, lip passando pela cabeça... não acredito! Dei mais uma rasgada singela e outra batidinha miserável logo em seguida. Sentei sobre minha tabla e começaram a vir a família, os amigos em flashes na cabeça. Emoção pura!
É isso! Depois ainda fui checar o lado oeste, Macaha, mas nem me empolguei com o mar e fiquei no carro curtindo o visual. Passei no mercado, comprei comida congelada, banho, janta, histórias, e-mail e naninha daqui a pouco.
Marcadores: diário, Havaí, Pedro Ribeiro, Viagem de surfista
15.11.07
"O Rodrigo vai pra Indonésia". Quem me contou foi um primo, o Marçal, numa manhã de sol quente e ondas mornas no Pontão do Leblon. Ele já tinha ido e sabia do meu velho desejo. Pela primeira vez na vida, tinha, ao mesmo tempo, uma janela de tempo e uns trocados pro sonho.
Rodrigo, designer e surfista do Leblon, queria ir além do óbvio: sonhava voltar à Ilha de Asu, em Sumatra. Descreveu com detalhes cada passeio nos salões verdes e vazios daquele pedaço de coral no fim do mundo. Deixou um DVD de sua experiência. E falou que ainda poderíamos passar alguns dias em Bali e Java.
Me convenceu, claro.
Corri para as referências. Tava numa velha Surfing, de 1992: "..Sumatra. Não é uma viagem fácil. Os percalços no caminho podem incluir doença, problemas com a língua, métodos de viagem rudimentares, tempo sujeito a tempestades violentíssimas, doença, contusão, doença (...). Mas há ondas melhores que as de G-land (na Ilha de Java, mais perto da civilização)".
Li também uma história no extenso guia Surfing Indonesia: "Numa viagem recente a Asu, ouvimos falar do caso de um surfista australiano que contraiu uma forma virulenta de malária cerebral durante um período de espera por swell. Ele foi levado num barco lento até a Baía de Lagundri, na Ilha de Nias e, depois de ser transportado de ônibus até Gunungsitoli (cidade do outro lado da ilha), morreu dos efeitos da malária, antes que pudesse ser transportado para uma cidade grande, com infra-estrutura médica."
O guia frisa que a história pode ser apenas uma lenda, mas diz que o viajante deve levá-la em consideração antes de embarcar. Como diz o povo local, "awas" (preste atenção). Como seguro morreu de velho, tomei algumas vacinas e muitos conselhos antes da viagem.
Chegar ao paraíso não é fácil: Rio-SP-Santiago-Auckland-Sydney-Denpasar. 36 horas, contando as escalas. Olhos negros e fuso horário torto, desembarcamos numa nuvem de incenso, odor doce. Dentro de uma bolha de vidro, fumantes repunham o tabaco perdido no vôo. Muitos australianos, vários europeus, uma penca de japoneses, alguns brasileiros. "Isto é Bali...", largou Rodrigo, num sorriso largo.
Na enorme placa, estampada na cara da fila da imigração, um contundente aviso: pena de morte para tráfico de drogas. Isso não é um aviso para mim. Pelo menos era o que eu imaginava.
Uma hora numa fila de imigração com mais de 100 cabeças não era nada. Afinal, Airport Left era logo ali. E Uluwatu tava mais perto que a Prainha do Leblon.
Entregamos os passaportes ao guarda que nos abriria as portas do paraíso. Cara feia daqui, sorriso irônico meia-boca dali e o puto manda:
- Tip? Tip? Tip?
Tip –noun
1. a small present of money given directly to someone for performing a service or menial task; gratuity: He gave the waiter a dollar as a tip.
Na língua oficial de Camões, gorjeta. Na nossa, gruja, jabaculê, changa, lambidela, molhadela, xixica.
Porra, eu é que vivo no país do tip. Olhei para o Rodrigo com a cara de quem não tava entendendo nada. E tinha entendido tudo. Peguei o passaporte e segui adiante.
Mais um obstáculo vencido, era hora de pegar as bagagens. Malas e pranchas? Extraviadas.
Caráio! Eu só pensava em Uluwatu. No idílico Ulu 32, nas ondas de orelha de caderno - iguais à de lá -, nos inúmeros sonhos de tubo sem fim.
No táxi, conheci o sorriso fácil do balinês. Povo pobre, afeito à alegria. A impressão não mudou no Hotel Dewbarata, em Kuta, onde ficaríamos por três dias, antes de viajar para Asu. Mas Uluwatu ainda estava mais longe que eu pensava.
Um funcionário da Quantas ligou avisando que as pranchas tinham ficado retidas na imigração. Agora, meu problema não era mais com a companhia aérea, e sim com os indonésios. Pouco antes, tinha escutado no hotel a história de uma australiana presa depois de supostamente plantarem pó na bagagem dela. Achacada, teria pago US$ 50 mil e voltado pobre para casa.
Porra, não tenho droga nem US$ 50 mil. Seria a cadeia meu destino? Longe da mulher, da filha e sem Ulu? Achei o cônsul do Brasil em Bali, que me falou, por telefone: "Não vá ao aeroporto sozinho. Posso te acompanhar daqui a duas horas. Me aguarde".
Esperei, tenso. Chegamos lá e, com uma carteirada de diplomata, minhas pranchas estavam liberadas, diante de guardas de imigração surpreendentemente gentis.
Tava seco por ondas. Molhei o corpo pela primeira vez em Uluwatu. Um fim de tarde com um metrinho de onda, sem muito crowd, que rendeu tubinhos e, claro, o velho sorriso de volta ao rosto. Agora sim, estávamos na Indonésia. Ainda deu para brincar uma manhã em Airport Left antes de acertar os preparativos para a Sumatra.
Asu era mais longe que imaginávamos. Era feriado da independência da Indonésia (Soekarno a proclamou em 17 de agosto de 1945) e não tinha vôo vago para viajar via Jacarta. Teríamos que sair do país, pousar em Kuala Lumpur (Malásia) e depois voltar para Medan (capital de Sumatra). E esse era só o início da viagem até o fim do mundo.
Na segunda parte, que será publicada em alguns dias, conto a aventura de Asu.
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