Surfe deluxe

A carta que saiu do tubo

17.5.08


Um quadro para a posteridade: Bruninho no Taiti. Foto: ASP Rowland

Bruninho mandou um e-mail ao Surfe Deluxe contando a trajetória até o título. Entre outras coisas, afirmou que a prancha do Mick Fanning, que quase o atrapalhou na segunda fase, não foi deixada na sua frente de propósito. E disse que Mineiro é, hoje, o brasileiro mais completo.

"Fala, Tulio... tá uma correria só aqui, mas vamos lá. Tô amarradão.

A bateria contra o Fanning foi bem difícil, primeiro porque ele é o atual campeão; segundo, porque eu tava há 15 dias sem surfar. Por isso, eu fiquei bem nervoso e cometi varios erros. Caí em algumas ondas que eu não costumo cair mas, no final, deu tudo certo. Uma coisa importante: eu tenho certeza que, na última onda, a prancha dele ficou na minha frente sem querer. Ele tinha acabado de cair na onda da frente. Foi isso. O mais importante é que no fim deu tudo certo.

Já a bateria contra o Taj foi bem mais tranqüila. Troquei de prancha. Peguei uma um pouco maior, com a qual eu já tinha surfado duas baterias em outras fases. Então, entrei bem tranqüilo, peguei todas as ondas boas da bateria e passei com uma certa facilidade. Foi legal para ganhar confiança.

No último dia, eu só estava com uma 6,3, era a única prancha que não tinha quebrado. Aí, acabei correndo no último dia com uma 5,9 que eu peguei emprestado de um cara que eu tinha acabado de conhecer (um jornalista israelense responsável pela transmissão em hebraico do evento no site da ASP). Com ela, acabei correndo todas as baterias do último dia.

O Mineiro evoluiu muito. Na minha opinião, ele é atualmente o brasileiro mais completo. Arrebentou durante o campeonato, assim como o Léo e o Heitor. Os dois, mesmo sem avançar muito no campeonato, surfaram algumas das melhores ondas.

Sobre o tamanho do mar, com certeza eu teria preferido ondas maiores, como as das triagens. A vitória seria um pouco mais gratificantes, mas mesmo assim eu tô muito feliz, até porque eu competi em mais baterias que todo mundo.

Valeu, abração"

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A conta do campeão

Abaixo, os somatórios do nosso homem-tubo, Bruninho Santos, nas 12 baterias até o título:



TRIAGENS


2 11.73 Williams Heiarii PYF White
1 11.83 Bruno Santos BRA Yellow
4 6.33 Jamie Sterling HAW Blue
3 8.56 Wakita Takayushi JPN

Red 1 15.40 Bruno Santos BRA
White 2 15.10 Williams Heiarii PYF


Red 1 18.47 Bruno Santos BRA
White 2 11.17 Stephane Koehne USA

Red 1 18.87 Bruno Santos BRA
White 2 17.76 Damien Wills AUS

Red 1 18.50 Jamie OBrien HAW
White 2 17.43 Bruno Santos BRA

EVENTO PRINCIPAL

Red 1 14.50 Taj Burrow AUS
White 2 12.73 Tom Whitaker AUS
Black 3 6.70 Bruno Santos BRA


Red 2 9.17 Mick Fanning AUS
White 1 10.00 Bruno Santos BRA


Red 2 13.00 Taj Burrow AUS
White 1 17.60 Bruno Santos BRA


Red 1 15.34 Bruno Santos BRA
White 2 3.70 Tim Reyes USA

Red 1 9.83 Bruno Santos BRA
White 2 9.07 Adriano de Souza BRA

Red 1 14.34 Bruno Santos BRA
White 2 8.67 CJ Hobgood USA

Red 2 6.83 Manoa Drollet PYF
White 1 9.16 Bruno Santos BRA

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Opinião: os 12 trabalhos de Bruno

15.5.08

Em todos os tamanhos de Teahupoo, o pequeno Bruno é um gigante. Foto: ASP Kirstin


A aposta do blog vingou: deu Bruninho Santos na cabeça em Teahupoo. O pequeno garoto prodígio entrou na água 12 vezes, entre as triagens e o evento principal, para carimbar definitivamente seu nome no caderno dos melhores surfistas de tubo do mundo da atualidade. O título lhe dá um prestígio inédito entre brasileiros no tour: o de surfista que realmente intimida campeões mundiais nas melhores ondas do planeta.

Tava pequeno? Nenhum gringo escaldado vai levantar a voz para dizer que ele só ganhou porque, no último dia de prova, Teahupoo assustava tanto quanto Ipanema. Todos sabem que Bruninho é ainda melhor em massas d'água pesadas. Já tinha provado o talento nas bombas da triagem. Pela enésima vez.

Bruninho perdeu quando era possível perder - na final das triagens, para Jamie O'brien, e na primeira bateria do main event, quando ainda pegava o pé do tubo, depois de alguns dias de molho por conta de uma contusão.

Somou placares baixos quando seus adversários fraquejaram ainda mais: em sua primeira bateria das triagens, contra Williams Heiiarii, Jamie Sterling e Wakita Takayushi; na repescagem do evento principal, contra Mick Fanning; nas quartas, contra Mineiro; e na inesquecível final, contra Manoa Drollet.

Agora, o mais importante: alcançou somatórios superiores a 14 pontos em oito das 12 baterias que disputou - deste universo, em quatro oportunidades fez mais de 17 pontos. A intenção não é humilhar, mas a comparação é pertinente: o colega compatriota Jihad Khodr somou (isso mesmo, somou) 3,16 na primeira fase e 5,53 na respescagem, quando foi eliminado. A diferença mostra a importância das horas gastas por Bruninho na busca obsessiva do treino em tubos e, ao mesmo tempo, a necessidade preemente de Jihad, que é bom surfista em outras ondas, treinar em cenários semelhantes aos que vai encontrar no WCT. Treinar muito.

Bruninho emplacou duas notas 10. Talvez pudesse ter alcançado mais scores perfeitos se fosse um americano ou australiano com título mundial na bagagem, mas isso definitivamente é do jogo. A diferença do campeão não foram os tubos de nota máxima, e sim a espantosa quantidade de ondas superiores a 8,5 nas mais variadas condições de mar. Bruno parece ter aprendido que a regularidade faz parte do show. E é o melhor remédio contra eventuais equívocos dos juízes.

Léo Neves mostrou o seu já conhecido poder com uma nota 10, apesar da eliminação para Bruce Irons. Heitor Alves surpreendeu no primeiro ano de Taiti com um 9,77. Tiago Pires, outro estreante, também cravou um 10. E Bruninho, abençoado pela regularidade, venceu mesmo sem figurar na lista dos autores das dez maiores notas e dos dez maiores somatórios da etapa.

Adriano Mineirinho merece mais que uma nota. É, com sobras, o melhor surfista brasileiro no tour. Perdeu para Bruninho numa bateria sem vencedores. Assim como o rival, ele parece ter assimilado a importância da regularidade nas notas altas. A grande virada, contudo, Mineiro deu quando reconheceu suas deficiências em ondas exigentes como as do Taiti. Correu atrás e, este ano, mostrou uma absurda evolução. Sua posição na prancha - de costas para a onda e com a mão na borda - parece ter encaixado definitivamente. Acelerou e atrasou quando foi preciso, sempre com bastante precisão e suavidade. Seus novos truques talvez ainda não sejam considerados uma prova definitiva de avanço porque as maiores bombas de Teahupoo - as que assustam mesmo - não despontaram no horizonte. Mas, é certo, servem como um precioso indicativo.

Não falei de Slater, nem é preciso. Ele não parecia interessado no evento.

Tive um especial interesse de ver a tal bateria dos dez futuros títulos mundiais: Jordy Smith x Dane Reynolds. O CT é mesmo muito difícil para estreantes, né Jordy? O sul-africano mostrou menos intimidade com o Taiti que supostos especialistas em beach break, como Heitor Alves, e expôs ao mundo sua primeira deficiência real: o posicionamento em tubos para a direita, pelo menos em competições. Em vídeos promocionais, não adianta mostrar serviço. Dane apresentou, ao menos nesta bateria, o contrário: entubou com jeito, fez ótima escolha de ondas e mostrou disposição para subverter padrões, ao tirar um tubo para a direita na bancada de Teahupoo. Meteu o sul-africano em combinação, sem piedade: 18 a 12.

Os deuses de Teahupoo só acordaram quando viram o americano dropar a segunda para a direita. Mandaram-lhe um enorme buquê com 12 ondas da série na cabeça, bem na parte mais rasa da bancada, na zona de impacto. Água na canela. Dane vai pensar duas vezes no próximo braço para a direita que pintar naquelas águas.
Só para finalizar com uma do Bruninho: o garoto surfou as últimas baterias com uma prancha emprestada pelo jornalista israelense encarregado de transmitir o evento em hebraico. Os foguetes do Joca costumam ajudá-lo, mas ontem ele ganharia com uma tábua de passar roupa.

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Diário do Bruninho no Taiti (I)

5.5.08



Bruninho passeando nas triagens com a 6'3 mágica. Foto: Steve Robertson/ASP Images

Bruninho Santos é a aposta brasileira do WCT do Taiti. Surfe Deluxe vai tentar manter contato com o nosso homem-tubo durante a competição para publicar, sempre que der, seu diário nas ondas mais pesadas do circuito mundial. Abaixo, o primeiro report do Bruninho:
"Em relação ao ferimento, tá tudo na boa. Eu me machuquei na perna no começo da semifinal das triagens e corri mais da metade da semi e a final toda com o machucado aberto. Só depois do final da bateria é que eu recebi o atendimento. Tomei uns 15 pontos, portanto a perna vai estar perfeita para o dia da competição. Eu poderia até surfar hoje, só estou evitando porque o mar está pequeno e, se eu entrar na água pode inflamar. De resto, minha perna já está ok.

O quiver é que está meio desfalcado. Vim para cá com várias pranchas animais, com um quiver que o Joca fez especialmente para cá, todas muito boas. Só que como eu cheguei um pouco antes da triagem, quebrei quase todas... Para as triagens, tava com uma 6'1 e uma 6'3, muito boas. Acabei competindo toda a triagem com a 6'3. Mágica. Para o caso de eu quebrar essas, o Trekinho vai deixar duas pranchas dele comigo - uma 6'5 e uma 6'2.

As Jocas que eu usei aqui foram as melhores pranchas que eu já usei na vida neste tipo de onda. Na véspera da competição, quebrei uma 6'7 que também estava muito boa. Com essa prancha, surfei na remada num dia que o pessoal estava fazendo tow in.

Tô bem tranquilo em relação ao WCT. Já participei de outras etapas e competi em algumas baterias contra meus dois primeiros adversários (Taj Burrow e Tom Whitaker) em ondas como Pipeline e no Chile e me saí bem. Mas não estou muito interessado contra quem eu vou surfar, só quero pegar o maior número de tubos possível e chegar o mais longe que eu puder na competição."

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Opinião: temos um candidato

30.4.08

Bruno Santos perdeu o status de aposta, de promessa. O vice-campeonato na triagem de Teahupoo é, no barato, o quinto resultado de respeito do garoto. De cara, lembro de dois shows em triagens de Pipeline, um consistente quinto lugar como convidado nos tubos do WCT chileno e uma aula de tubos nas mesmas triagens de Teahupoo ano passado, em mar monstruoso.

Credenciais suficientes para o brasileiro dizer: nós temos um candidato ao título na onda mais assustadora do tour. Durante as triagens, tirou dois 10 e, na final, perdeu por pouco para Jamie O'Brien, depois de uma nota máxima do havaiano nos minutos finais.

Jamie talvez seja o único além de Slater e os irmãos Irons com domínio absoluto da moderna técnica de entubar de backside em ondas para a esquerda. Não faz mais que a obrigação: o quintal de sua casa é Pipeline. O de Bruninho é Itacoatiara. E, ainda assim, nosso homem-tubo assusta, impõe respeito. Seu mérito é ainda maior porque, nas esquerdas tubulares, ele é um goofy que ousa ameaçar o império aparentemente indestrutível dos regular.

Bruno parece ser o único candidato real do país qualificado para o pleito de Teahupoo. Voto nele.

Uma eleição, Bruninho já venceu. Na escolha do surfista ideal, feita por 20 jurados convidados pelo Surfe Deluxe, o garoto foi escolhido com sobras na categoria "melhor em tubos". Clique aqui para ver os resultados.

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Duas baixas

22.4.08

Duas notas do portalzão Surfline:
- Damien Hobgood fraturou o ombro ao bater na bancada de Teahupoo durante os treinos para a próxima etapa do WCT. O acidente aconteceu num swell perfeito da semana passada. Damien, que defende o título no Taiti, está fora da prova.
- O surfista Travis Potter, uma das estrelas do celebrado Second Thoughts, contraiu malária cerebral enquanto viajava atrás de ondas por ilhas do sudoeste asiático. Ele gravava com outros seis loucos um novo filme de surfe extremo, chamado Isolated, em Papua Nova Guiné. Neste momento, está internado num hospital em Jakarta.

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A coragem de Maya em francês

19.12.07




A última edição da revista francesa Surf Session (dez/2007) mostra duas fotos da brasileira Maya Gabeira encarando Teahupoo (no alto, à esquerda e no centro).
Na legenda, os editores da terra da Liberté exaltam a coragem da moça: "La Brésilienne Maya Gabeira, qui a gané lê XXL l’an passe, a dompté plusieurs bombes au cours de la journée, retournant même a l’eau aprés avoir essuyé um dês pires wipe-out jamais subi par une femme."

O que, numa tradução livre, quer dizer: "A brasileira Maya Gabeira, que ganhou o XXL ano passado, domou várias bombas durante a temporada, voltando à água mesmo depois de tomar um dos piores wipe-outs jamais enfrentados por uma mulher."

A revista, por sinal, tem ótima apresentação e excelentes fotos.

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O pequeno buda do Taiti

28.11.07

O iluminado Tamaroa treina seus primeiros vôos no quintal de casa (foto: www.haumaru.com)


Siddhartha Gautama atingiu a iluminação quando meditava sob uma árvore Bodhi. Ali, mudou seu nome para "Buda", fundou uma religião e transformou o mundo. Era o cara certo, na hora certa, no lugar certo. Um iluminado. O surfe, mesmo na condição de mero prazer terreno, também tem os seus eleitos. Só que, em vez da elevação espiritual, a diferença do escolhido das ondas é o talento e as empresas que resolvem jogar holofotes em cima dele.

É o caso do taitiano Tamaroa McComb, 15 anos, que depois de faturar o "King of Groms" virou o iluminado da vez no mercado. Natural do Taiti - terra de ondas excessivas e escassos competidores de ponta -, ele é a nova estrela júnior da Billabong e, com isso, candidato natural a um título mundial. O primeiro ato da empresa foi mudar o garoto para a Gold Coast, na Austrália. A partir de agora, ele se divide entre a Polinésia Francesa e a Oceania. Tamaroa vai morar a passos de Superbank e Kirra, com o shaper Dylan Longbotton.

O roteiro do moleque já está traçado pela Billabong até o WCT: em dezembro, encara a temporada havaiana, onde vai se preparar para o Billabong Pro Junior; em 2008, entorta os aussies no circuito australiano júnior da ASP; em 2009, finalmente, tenta a sorte no WQS, em busca de uma vaga relâmpago no WCT.

Tamaroa disse o seguinte: "Eu realmente gosto de competir. É um jogo que eu gosto de vencer e de me manter vencendo." No que o gerente de marketing da Billabong e mestre da linha de onda Luke Egan emendou: "Tamaroa é um dos mais interessantes surfistas júnior e uma dos mais quentes promessas que o Taiti já teve. Queremos assegurar que ele tenha todas as oportunidades para confirmar seu fantástico potencial."
Esse filme nem sempre acaba bem. Não faltam casos de iluminados que se apagaram no caminho para o WCT. Mas assim, sob o holofote de uma gigante, não há dúvida: a estrada é mais curta.

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Surfe Deluxe
Blog de notícias sobre as ondas e seus personagens, escrito com palavras salgadas pelo jornalista Tulio Brandão.
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Créditos
Foto de fundo: Saquarema, por Fábio Minduim / Layout: Babi Veloso
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