4.6.10
Compre Saquarema, compre Saquarema...*
Era só mais uma visita de rotina, para saber das novidades oficiais da associação manda-chuva do surfe profissional. Entrei no site da ASP na sexta-feira certo de que veria, entre as notícias de destaque da página principal, as ondas fabulosas do WQS de Saquarema. Horas antes, eu tinha aberto uma batelada de e-mails com fotos alucinantes e notícias frescas do evento.
A despeito de ser um evento com mais surfistas caseiros que grandes estrelas mundiais, estavam lá alguns nomes importantes no mundo da própria ASP: o garoto prodígio do Havaí John John Florence, o vencedor de Trestles, Gable King e, claro, o quarto do mundo Jadson André. Aliás, a ASP não pode esquecer que o cara é o quarto do mundo.
Ah, as ondas. John John disse que lembravam um pouco as do Havaí. Jadson disse que estava difícil lá dentro, mas parecia bonito de fora. Esta é a chave do sucesso, desde o Coliseu de Roma. Da areia, o bom fotógrafo Daniel Smorigo registrou imagens de primeira de um swell que variou entre dois metros e um metrinho em Itaúna, sempre com linhas bonitas.
Então, depois de ler e ver isso tudo, abri o site da ASP. Lá vi notícias sobre um insosso Pro Júnior feminino em Les Bourdaines, na França, e um similar masculino em Manu Bay, na Nova Zelândia. Nos dois eventos, ondas risíveis. Fui na setinha do site – onde é possível passar de uma notícia para a outra. Nada de WQS em Saquarema. Nenhuma bomba de Itaúna.
Postam bateladas de Pro Junior e não dão uma linha de um evento importante no Brasil? A primeira reação, coisa de jornalista, foi mandar um e-mail para o gerente de mídia da entidade. No texto, contei o que tinha visto, e usei como isca o John John, que além de excelente surfista, é aposta certa da ASP como o nome havaiano dos próximos anos.
Até então, a melhor foto era dele. Escrevi: “Recomendo que a associação publique alguma coisa. Apesar de o evento estar sendo realizado no Brasil, as ondas estão incríveis”, disse, com um gota de ironia no canto da boca. O gerente de mídia da ASP Internacional me respondeu prontamente, dizendo que estava havendo algum problema e que iria resolver isso.
Eu iria ainda mais longe com o texto se soubesse – como soube mais tarde – que os assessores do evento e da ASP América Latina, ambos excelentes profissionais, vinham enviando textos em inglês e uma fartura de fotos de ação para a matriz da ASP.
Bom, não sei se foi a causa, mas, no dia seguinte, o Coca-Cola WQS em Saquarema estava estampado no site da ASP. A foto, claro, era do John John, num assustador ataque de backside. Tá bom, o surfista era havaiano. Mas a onda e o evento, respeitáveis, eram brasileiros.
Sem querer desmerecer o trabalho especialmente determinante das duas assessorias, que produziram conteúdo de enorme qualidade todos os dias, a insistência de um jornalista inconformado pode ter ajudado um pouco. Uma força extra nunca é demais.
É como o bem-sucedido anúncio do chocolate que apelava para a hipnose pela repetição. Só que, na prateleira, estão o pico e o evento: “compre Saquarema, compre Saquarema...”
Onde passa um boi brasileiro, passa a boiada. A ASP reproduziu notícias de Saquarema até o fim do evento, quando deu Willian Cardoso na cabeça, em final contra o amigo Marco Polo.
Desta vez, a vitória brasileira foi ainda maior. Venceu a cidade de Saquarema, grande palco do surfe brasileiro, que voltou a mostrar a sua força para a ASP. E venceram, mais uma vez, os organizadores do evento, pelo esforço de bancar, apesar dos possíveis obstáculos logísticos, um evento do circuito mundial numa das melhores ondas do Brasil.
* Coluna publicada no site Waves no dia 18/05/2010
Marcadores: John John Florence, Saquarema, WQS
A vingança dos mortais*
Lower Trestles estava apinhada de novas e velhas estrelas em Lower Trestles, mas quem levou a etapa, que virou uma das mais cobiçadas do circuito de acesso com o novo corte no ranking, foi o azarão Gabe Kling, dono de um surfe correto, no trilho certo e com carving definido.
A vitória de Kling é um alento aos surfistas mortais, comuns, que ainda não compraram bilhete para o trem da nova ordem mundial, onde só entram os mutantes capazes de inventar o novo.
Aéreos reverses, alley-oops, rodeo-clowns e outras invenções quase circenses são como armas de fogo de maior calibre, capazes de um estrago bem maior em ondas – e, por tabela, na papeleta dos juízes. Mas, numa guerra, o cara tem que saber usar a munição na hora certa e sempre acertar o alvo. Do contrário, corre o risco de ser atingido por uma pedra lançada de forma certeira de uma atiradeira medieval e ficar pelo caminho.
As ondas fáceis de Lower Trestles parecem um campo de treino perfeito para o repertório progressivo que certamente vai dominar a segunda década do século XXI, mas a aparência pode enganar o surfista mais afoito. A qualidade daquela parede também favorece os arcos mais suaves, que não fazem o surfista perder velocidade. Kling tirou vantagem disso.
Nas fases das baterias de quatro, o campeão não havia conquistado sequer uma vitória. Passara quase sempre sem brilho, em segundo. O turning point de sua história no evento rolou nas quarta-de-final, quando, mesmo sendo um surfista com armas conhecidas, atropelou o exterminador do futuro Jordy Smith, por um placar de respeito: 16.50 x 15.77. Depois, passou pelo tricampeão mundial Andy Irons e, na final, não tomou conhecimento de Chris Davidson, sempre com um surfe correto, nas melhores ondas, fazendo manobras na hora certa.
(Uma nota rápida sobre Irons: o único surfista da história a desmontar a fortaleza psicológica de Kelly Slater deu os primeiros sinais contundentes de recuperação em Trestles. Nas quartas-de-final contra CJ, foi o surfista insinuante, dono de linhas precisas e extremamente moderno que encantou o circuito mundial anos atrás. Fez duas notas superiores a nove. Deu esperança a quem torce pela sua recuperação de uma performance melhor em Jeffrey´s Bay.)
O surfe progressivo sofreu abalos também na categoria júnior do evento. Gabriel Medina, dono de algumas das armas mais letais do mundo, ficou em último nas quartas-de-final da categoria Júnior fazendo 15,27 em suas duas melhores ondas.
Noves fora uma possível falha de julgamento de sua melhor onda – denunciada pelo próprio comentarista no vídeo on-demand do evento – a derrota indica que o futuro será de notas altas o tempo todo. E nem adianta só tirar da cartola um Superman ou coisa parecida.
Prova disso aconteceu com Josh Kerr, nas quartas-de-final do evento principal. Ele acertou uma manobra futurista de skate street na onda, mas não deu continuidade. Saiu da linha, perdeu fluidez e, por isso, não ganhou a nota que precisava para virar em cima de Jordy Smith.
Adriano de Souza foi, como quase sempre, o melhor do Brasil. Se a ASP fosse uma escola, Mineiro seria um dos melhores alunos, um clássico CDF. Os juízes pedem carving na cavada e durante a manobra, ele executa. Manobras aéreas, em dia. Reverses podem ser notados em quase todas as ondas. Velocidade, ele tem de sobra. Até as ondas tubulares o garoto dominou.
Então, o que falta para a glória? Aparentemente nada. Mas, fosse eu um amigo de escola, o colega vagabundo que todos já tiveram, diria sem medo ao Mineiro: relaxe, parceiro!
Tenho observado no surfe de Adriano uma carga excessiva de compromisso com o correto, com o esperado pela ASP. É como se ele tivesse na cabeça a rotina de manobras que vai executar antes de entrar na água.
Antes que me entendam mal: ele está no topo, surfando muito. Só falta a cereja no bolo.Os mesmos juízes que exigem as manobras x, y e z se encantam pelo imponderável, pela criatividade, pela explosão pura de talento que torna o esporte mágico. Eles são como nós.
E Adriano tem, é claro, todas as ferramentas para provocar esse encantamento neles.
Basta relaxar só um pouco.
* Coluna Leitura de Onda, publicada no site Waves no dia 11/05/2010
Marcadores: Adriano Mineirinho, Gabe Kling, Trestles, WQS, WT
9.2.09

A bela foto de Daniel Smorigo é um retrato fiel das curvas da mais bonita ilha do Brasil. Detalhe para o Morro Dois Irmãos (ao fundo), cenário da décima edição do Hang Loose Pro Contest, que começa hoje na Cacimba do Padre. O visual é de paraíso, mas para os brasileiros será a primeira batalha da longa guerra pela recuperação do espaço no WQS e, por tabela, no WCT. Bons tubos.
Marcadores: Noronha, WQS
22.10.08
Ninguém é louco de dizer que o Mineiro tá decadente, mas veja só o release enviado há pouco pelo amigo jornalista Joãozinho Carvalho sobre o WQS do Guarujá. Parece ter sido feito sob encomenda para o texto
"A molecada atropela?", postado dias atrás no blog.
O release: "Fica valendo a pergunta “Who will be the next King?” para o Onbongo Pro Surfing 2008, pois Adriano de Souza acabou sendo destronado logo em sua estréia na Praia de Itamambuca, nesta quarta-feira em Ubatuba, litoral norte de São Paulo. Ainda inseguro pela contusão no tornozelo que o impediu de defender o título do WQS de Itajaí (SC), semana passada, o Mineirinho do Guarujá agora se concentra para disputar a etapa brasileira do WCT que começa terça-feira em Imbituba (SC). Em Ubatuba,
ele foi batido pelo catarinense Marcos Pastro e pelo paulista de apenas 14 anos de idade, Gabriel Medina, que já tinha se destacado na terça-feira quando ganhou a bateria que inaugurou a terceira edição do Onbongo Pro Surfing na Praia de Itamambuca. Agora, um novo Rei será coroado e sentará no trono especialmente fabricado para o campeão em Ubatuba, pois o paulistano Renan Rocha praticamente encerrou sua carreira com a vitória conquistada em 2006 no litoral norte paulista."
Marcadores: Adriano Mineirinho, WQS
21.12.07
Phil no dia de seu título mais importante, em Anglet, França. (Foto: ASP/Oxbow)Campeão mundial de longboard. O primeiro brasileiro a ganhar um título adulto da ASP. Elogiado pelo maior jornalista especializado em surfe do mundo, Nick Carroll, depois de uma performance arrebatadora no Havaí. Especialista em ondas grandes, hábil no tow in. Respeitado pelas manobras progressivas numa modalidade de surfe clássica. E, por último mas não menos importante, um exemplo de atleta.
Na próxima temporada, Phil Rajzman vai emprestar todos os atributos descritos acima ao surfe de pranchinha. Depois de vencer, ao lado de Suelen Ferreira e Simão Romão, o Festival Petrobras de Surfe no último fim de semana, ele contou ao Surfe Deluxe que, em 2008, vai se dividir entre as competições de longboard e o WQS, na esperança de chegar à elite do surfe. O maior obstáculo são as ondas duvidosas da divisão de acesso, já que, nos destinos prime do WCT, Phil é unanimidade.
"Depois do título mundial de longboard, deu vontade de voltar a competir de pranchinha. Tenho o objetivo de chegar ao WCT e, com certeza, o fato de gostar de eu ondas pesadas favoreceria meu desempenho na elite, a exemplo do Léo Neves. Ano que vem, seria uma readaptação às competições de pranchinha. Primeiro pretendo competir umas 3 ou mais etapas para ir ganhando confiança e mostrar meu potencial a patrocinadores", explicou.
Quando moleque, turbinado pelas lições de Rico de Souza, com quem aprendeu a surfar, Phil ganhou títulos amadores na pranchinha, mas sem experiência em competições internacionais, sucumbiu à peneira do WQS. Acabou migrando para o longboard.
"Até 19 anos, competi de pranchinha e longboard paralelamente. Não tive nenhum problema com isso, muito pelo contrário, um ajuda o outro na evolução. Acabei parando de competir o circuito de pranchinha. Hoje tenho ritmo de competição, mas preciso me readaptar aos critérios de julgamento, para aos poucos voltar a ser reconhecido no mundo pranchinha. A partir daí, acho que os resultados virão conseqüentemente."
O caminho é longo, mas ninguém duvida que Phil possa chegar lá. Agora, só falta patrocínio. Soa inacreditável, mas o atual campeão do mundo de longboard e dono dos fortíssimos atributos descritos no primeiro parágrafo do texto está com o bico da prancha branco, sem marca. Talvez agora, com a perspectiva da migração para a pranchinha, os sonolentos empresários acordem.
Marcadores: longboard, Phil Rajzman, WQS